O bom comentarista

outubro 10, 2017

O microondas lá de casa queimou e eu precisei comprar outro. Sabendo que minhas jantas estavam ameaçadas, procurei logo substituí-lo. Busquei referências nas pessoas da minha idade que já tem um forno de microondas, porém não fui bem sucedido. Ou elas não sabiam o modelo ou tinham um forno tão antigo quanto o que havia batido as tampas.

Como já planejava comprar o forno pela internet, fui atrás de testes e análises dos modelos disponíveis. Para minha surpresa, não precisei procurar muito – logo encontrei um forno bom, bonito, barato e pequeno. Antes de decidir a compra, dei uma olhada nas avaliações no site da própria loja, que eram muitas e boas. Comprei.

O que me deixa fascinado nessa experiência é que eu contei com a ajuda de outras pessoas pra tomar minha decisão de compra. Elas tiraram um pouco do seu tempo pra dizer se aquele produto valia a pena sem receber nada por isso. Nem sabem se serão lidas.

De modo geral, esse parece ser um hábito em ascensão na internet brasileira. Analisar produtos e serviços on-line é uma moda antiga em outros países, e agora está começando a pegar por aqui. Pelo volume de vendas das grandes redes, era de se esperar que houvesse mais comentários nos produtos, e eles estão aparecendo aos poucos.

É ótimo poder ler a opinião de outros compradores. Dá para saber mais sobre o que se está comprando. Alguns sites, como a Amazon, permitem que sejam feitas perguntas para que outros usuários respondam na própria página do anúncio. Legal demais. Impressiona como as pessoas, de uma maneira geral, entram na cultura de feedback criada pela empresa e gastam tempo informando outras dos prós e contras de comprar alguma coisa ou de visitar um lugar.

Dá até para garimpar um pessoal mais entusiasmado que entra nos detalhes do produto. Manual, funcionalidades, qualidade e defeitos ocultos, ficou mais fácil e também mais difícil decidir uma compra. É tanta informação que pode ser que um potencial comprador se questione se realmente precisa daquilo, o que no fim das contas é bom.

Ver avaliações de coisas e de lugares é duplo benefício porque me ajuda a ver que nem só de comentários imbecis é feita a internet. É tentador ler centenas de letrinhas sem propósito em sites de notícias, porém maior proveito há em deixá-las de lado. Ser e ler um bom comentarista na internet não trará o gostinho da encheção de saco, mas é um comportamento extremamente benéfico para quem procura a experiência quem já arriscou.

Qual foi a última coisa que você comprou na internet? Você deixou uma avaliação do produto e da loja? É rápido, é fácil, e pode ajudar alguém a decidir se compra algo ou não. Que tal economizar um pouco de energia na trollagem e gastá-la em alguma coisa edificante? Dá para começar pelo básico, avaliando no Google e no Facebook, e depois prosseguir confiante para avaliar até aquela compra de impulso em algum site geek, isso para não falarmos do TripAdvisor. Se num dia procuramos informação, no outro somos nós que a criamos.

Obrigado a todas as pessoas que palpitaram no site do microondas. Minhas jantinhas estão a salvo por agora. Fiquei duas vezes satisfeito por ter comprado um bom produto contando com a ajuda de outras pessoas. E quando não quero usar o microondas, posso pedir algo pelo iFood – só deixa eu ver as avaliações desse restaurante…

good work

 

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Eclipses

agosto 24, 2017

 

Três dias atrás ocorreu um fenômeno aguardado por muita gente, especialmente pelos norte-americanos: o eclipse total do Sol foi visto em todo o território dos Estados Unidos. A última ocorrência do fenômeno foi 99 anos atrás.

Lembro-me de ter visto poucos eclipses na vida. Além de ser um evento relativamente raro, nunca foi algo que chamou tanta atenção. Talvez tenha contribuído para isso o fato de haver uma casa noturna em Goiânia chamada Eclipse, da qual em geral não se ouviam boas notícias.

Os ianques receberam seu eclipse solar com bastante entusiasmo, mas para nós brasileiros a coisa já está batida. Se dessa vez não tivemos o privilégio de ver a Lua passar na frente do Sol, temos a oportunidade de ver uma infinidade de objetos que tentam substituí-la. Inventamos o eclipse à brasileira.

Não raramente, ocorrem anúncios publicitários nos jornais tentando nos convencer de que peneiras dão bons eclipses. Vemos também alguns objetos maiores tentando esconder o Sol, como notícias de cortes orçamentários e de aumento no preço da gasolina.

Enquanto o resto do mundo espera dezenas de anos para ver o ocultamento temporário do Sol, no Brasil temos a oportunidade de ver o fenômeno quase todos os dias. Uma parte da população já ficou tão acostumada com essas tentativas que já nem percebe a diferença na claridade. eclipse

Existe, porém, a inescapável realidade. Parafraseando o Kleber Lucas, não é porque a Terra escureceu que o Sol deixou de brilhar. E ainda que a própria Lua se ponha no caminho da luz para o planeta, não poderá completamente sombreá-lo.

Veio o eclipse e já passou. Por aqui, permanecem as tentativas e as piadas. Assim como o Trump, que olhou para o fenômeno sem proteção ocular e aparentemente não viu nada, fingimos não ver os eclipses forjados que nos aparecem todos os dias. Mesmo que o Sol estrela brilhe em potência e esplendor a ponto de queimar retinas, muitos tentam encobri-lo com peneiras de  1,99.

Tio Ben e Jesus

agosto 8, 2017

Há 48 anos, o homem pousou na Lua pela primeira vez usando um computadorzinho com apenas uma fração ínfima do poderio atual dos smartphones – claro, ele levou outras coisas também. A tecnologia nos tem permitido fazer coisas incríveis a ponto de imaginarmos soluções para muitos dos nossos problemas, de sorte que é seguro dizer que somos a geração mais poderosa a caminhar sobre a Terra, e isso sem muito esforço.

Sendo assim, a minha geração é mais poderosa que a do meu pai em termos de conhecimento e de ferramentas disponíveis, e a próxima será mais poderosa que a minha pela mesma razão. Sempre que começo a pensar sobre isso, lembro-me da frase do tio Ben, personagem muito conhecido da cultura pop. Pouco antes de morrer, ele diz a Peter Parker:

com grandes poderes vem grandes responsabilidades

tio ben

Nada mais natural. Porém, parece que ainda não entendemos quais são os efeitos e as dimensões que essa frase toma quando consideramos o avanço tecnológico. Porque somos mais preparados e mais instruídos, é nossa obrigação atacar problemas mais complexos e aperfeiçoar o que já existe de bom. Temos uma dívida de gratidão com as gerações passadas que jamais poderá ser paga, assim como a próxima geração terá conosco.

Não que essa frase seja nova também. Muito antes do tio Ben, outra pessoa já havia cantado a mesma pedra, e continua falando até hoje. É o Senhor Jesus, quando diz:

De todo aquele a quem muito é dado, muito será requerido; e daquele a quem muito é confiado, mais ainda lhe será exigido.
Lucas 12:48

(não tem GIF, mas tem a Bíblia, e já tá excelente)

É no mínimo peculiar, então, que a cultura pop taxe a Palavra de Deus como antiguada e retrógrada quando temos um de seus grandes personagens orientado essencialmente por um ensinamento cristão. Poderia discorrer mais sobre essa contradição e sobre o senso de conveniência que ela evoca, mas não é esse o ponto aqui.

A ideia é que, de Jesus a tio Ben, não podemos escapar à inegável realidade de que, ao nascer, já viemos com vários conhecimentos que, se não preinstalados, estão imediatamente disponíveis. Sendo assim, é nossa obrigação usar todos os recursos ao nosso alcance para melhorar não só o presente, mas também o futuro.

Não digo isso para colocar mais peso sobre a minha geração, já deprimida e ansiosa o suficiente. O princípio evocado por Jesus e por tio Ben acompanha a humanidade desde sempre, é uma responsabilidade perene.

Em grande parte graças aos smartphones e à internet, todo mundo tem muito poder nas mãos agora, coisa que Alexandre, Nero e outros grandes imperadores jamais poderiam imaginar. Convém que reflitamos a respeito do uso que temos dado aos milhares de recursos que hoje temos, pois seremos cobrados pelo seu uso, sendo ele responsável ou não.

O problema da pirataria de conteúdo

agosto 1, 2017

pirate

Não é algo novo, nem recente. Já faz muito tempo que a pirataria está presente na humanidade. Não quero, porém, abordar os antigos navios e os barris de rum – hoje vamos falar de downloads por torrents e cds sem capinha.

Inegavelmente, a pirataria é algo ainda presente na vida de grande, grande parte da população brasileira. A prática é tão disseminada que está por toda parte, não sendo mesmo necessário ir à Feira do Paraguai para vê-la – em todos os grandes setores de Brasília, tem gente vendendo dvd’s no plastiquinho e spinners nos bares.

Por um tempo eu fui um dos defensores dessa prática. Graças à pirataria em tempos passados, adquiri boa parte do acervo cultural que hoje tenho, conhecendo jogos e filmes que de outra forma não conseguiria. A boa notícia é que as coisas mudam e, sinceramente, é com alívio que posso dizer que, para esse propósito, não precisamos mais dela.

De fato, a pirataria de conteúdo hoje não compensa sequer o risco, e isso por dois motivos. Graças a companhias brilhantes como Spotify, Netflix e Microsoft, o acesso a um acervo de qualidade foi enormemente facilitado. Por preços bem competitivos, dá para escutar música boa, ver filme e jogar bastante.

Adicionemos a esse mix a necessidade de um ambiente on-line mais seguro para o internet banking, e temos grandes argumentos contra a pirataria de conteúdo. Se hoje é mais barato e seguro consumir dentro da legalidade, por que piratear? É uma questão difícil de ser respondida e que merece alguma atenção.

Primeiramente, o acervo especialmente da Netflix não é dos mais atualizados no Brasil. Assim, muita gente usa esse argumento para baixar um filme ilegalmente. No entanto, boa parte das operadoras de internet tem também planos de aluguel digital com preços bem em conta, sendo uma opção bastante racional. Alugar um filme que estava nos cinemas três meses atrás, por exemplo, custa em média R$ 11,90 no Net Now.

Filmes em alta qualidade são geralmente arquivos grandes e demandam banda larga, energia e tempo para o download. Se você tiver tudo isso, então é mais fácil alugar do que baixar no piratão. O problema da pirataria de conteúdo atualmente deixou de ser econômico. Filmes, músicas e games estão licitamente acessíveis por um preço relativamente baixo, fato recente e incontestável.

A questão passou a ser de integridade. Não se trata mais de poder consumir, mas de fazê-lo da maneira certa, e isso nos leva ao ponto final desse post: se a corrupção da nossa sociedade está até nas pequenas coisas, por que não começar o conserto por elas?  É um aprendizado certamente transferível a outras áreas da vida também. Não é porque não vamos ser presos que podemos praticar pequenos crimes.

Se hoje podemos consumir cultura da maneira certa por preço justo e de forma segura, o ato de piratear torna-se inóquo, infrutífero. Temos caminhado nesse sentido, mas precisamos avançar mais. Podemos e devemos trabalhar para melhorar o quadro de falência moral do País, e o melhor é que podemos começar a fazê-lo da maneira como sempre estivemos acostumados: nos divertindo.

4 breves lições que aprendi com o Crossfit

julho 25, 2017

crossfit

Quero compartilhar algumas lições que o primeiro ano na prática do Cross me ensinou. Tem sido uma experiência intensa, porém tranquila até agora. Certamente eu poderia ter aprendido essas coisas em outros lugares e em outras atividades, mas essa é minha experiência e, por ser muito positiva, vale a pena mencioná-la aqui. Embora não goste de escrever listas, eis aqui alguns dos ensinamentos que aprendi na prática do Crossfit.

São lições facilmente transportáveis do contexto do Cross para outros da vida – trabalho, relacionamentos, vida pessoal etc. Outras pessoas, incluindo amigos meus, não tiveram a mesma boa experiência que tive ou não tiraram tanta coisa dela como eu tirei, e tudo bem também. O bom, no entanto, é que hoje muitos boxes oferecem semanas experimentais grátis para quem quer conhecer um pouco mais desse universo.

 

1 – Corpo em primeiro lugar – noção

Embora eu já me interessasse pelo Cross há mais tempo, só comecei a praticá-lo mesmo cerca de um ano atrás. Isso porque já tinha ouvido muitos relatos de pessoas lesionadas, com problemas na coluna e nos joelhos. Com esse background, comecei bastante cauteloso, tendo o compromisso de levantar somente o que aguentasse carregar. Ainda hoje esse é o padrão.

No começo é natural fazer assim por conta da insegurança e da novidade. Depois, com algum conhecimento, fica fácil se empolgar e começar a exagerar, especialmente nas competições. Então essa é a primeira lição: o corpo em primeiro lugar. A aquisição da consciência corporal e do conhecimento das articulações é de grande valor pra evitar não só dor de cabeça, mas também de ombro, de coluna, de punho e de joelho.

 

2 – Se correr rápido o bastante, é possível esquecer os problemas – ação

Colocada a prioridade de cuidar do corpo e feitas algumas salvaguardas no sentido de preservar ossos e juntas, pude então trabalhar no incremento de um dos princípios básicos do Crossfit: a intensidade.

Sem escapatória nesse quesito, o nome do esporte e a característica são quase sinônimos. Aqui também ainda passo pelo progresso incremental. Comecei no sufoco, pensando que ia passar mal nos primeiros dias, e que seria assim para sempre. Porém o corpo evolui e se adapta – com diligência e constância, o condicionamento aumenta e a respiração fica mais eficiente. Passado um tempinho, dá até para gostar de treinos aeróbicos intensos.

No ápice do esforço, inclusive, com o corpo trabalhando a mil, nem me lembro das tretas do dia a dia. Esse é um benefício secundário que não se aplica somente à corrida, mas a qualquer atividade física que demande esforço intenso, e o Crossfit é uma modalidade particularmente bem servida nesse departamento.

 

3 – A comunidade importa – atenção

O Cross é uma atividade que pode ser praticada individualmente ou em grupo, mas é sempre em grupo. Por estranho que pareça, talvez o principal motor de grande parte dos Crossfiters seja exatamente este: a comunidade.

É muito bacana participar de um grupo de pessoas que não se preocupam somente consigo mesmas. Consegui ver isso muito claramente num torneio em que os competidores torciam uns pelos outros. Os vencedores, tendo terminado suas séries, uniram-se à torcida para incentivar aqueles que ainda não tinham terminado. Meu time ficou em último nesse dia, e ainda assim foi uma grande experiência.

 

4 – Só termina quando acaba, ou vice-versa – dimensão

No Crossfit, a parte mais intensa do treino (wod – workout of the day) tem quase sempre um segundo fator determinante: tempo marcado. O timer é configurado de forma que os participantes tenham uma noção do quanto resta até o fim do treino. Para mim isso funciona muito bem, pois sei que aquele treino não vai durar para sempre.

Isso é importante porque me motiva a treinar com intensidade até o tempo acabar. Ou acaba o tempo ou acabam as repetições. A noção de que meu esforço tem hora para acabar me ajuda a entregar tudo e, novamente, a usar a intensidade num curto período, até o último segundo. Abre também possibilidades no sentido de traçar estratégias para cumprir o proposto da melhor forma possível, o que é muito legal.

 

E sim, existe sempre o risco de lesão. Aparentemente esse é um fator inerente a qualquer atividade física intensa. Um amigo meu da igreja já precisou usar a botinha ortopédica por dez dias em virtude de uma pelada, e eu já precisei ir à fisioterapeuta pra tratar um ombro dolorido. Além disso, já cansei de ver distensões em panturrilhas de corredores experientes. O que quero dizer é que o risco de se lesionar sempre estará presente no esporte, seja ele qual for.

Essas são algumas das coisas que aprendi crossfitando por aí. Poderia citar ainda as descobertas positivas e negativas na mobilidade, o senso de competição e de camaradagem, o incremento na garra e na socialização, isso para não ficar no feijão com arroz do aumento da força e da massa muscular (embora, depois da viagem ao Japão, eu precise mesmo é recuperar os músculos perdidos). A lista segue.

O Crossfit tem me ajudado a ter um pouco mais de noção em relação ao meu corpo e aos cuidados que ele demanda, mais ação para momentos que exigem intensidade e vigor, mais atenção com as pessoas ao meu redor e mais dimensão da escassez do tempo e da necessidade de aproveitá-lo em sua totalidade. É um esporte divertido, desafiador, social, e livre de revezamentos no supino.

E não, eu não sou o cara do GIF. É o Josh Bridges. Só tirando qualquer dúvida que por acaso exista. Um dia eu o alcanço nesse snatch…

 

 

 

País de medo

julho 19, 2017

medo

O relógio marcava cerca de 22 horas. Eu estava num trem, voltando de Kobe para Quioto, meio acordado, meio dormindo, embalado pelo balanço do vagão nos trilhos.

Perto de mim, uma turma de garotos pré-adolescentes fazia alguma algazarra, com a habitual mútua encheção de saco. Não se ouvia, porém, quase nada além do barulho do próprio trem. No Japão, o silêncio no transporte público é levado muito a sério; tem plaquinhas em todos os trens sugerindo que as pessoas não falem ao telefone e que usem fones de ouvido. E é basicamente o que todo mundo faz.

E no sacolejo do trem, eis que, ao parar numa estação, entra uma garota e senta ao meu lado. Ela põe seus fones e começa a assistir a um vídeo qualquer. Eu já estava muito sonolento e comecei a tirar o cochilo de avião – aquele em que basta fechar os olhos e deixar o equilíbrio da cabeça em automático.

Tava tudo funcionando bem, até que senti um pesinho no meu ombro. Pensei que era alguém me cutucando e, sendo filho de quem sou, acordei rápido, porém disfarçando. Qual não é minha surpresa ao perceber que não tinha ninguém me cutucando – a mocinha sentada ao meu lado pegou no sono e, no que posso apenas definir como uma confiança coletiva sem precedentes, tombou pro meu lado.

Uma japonesa dormindo no ombro de um cara que claramente não é oriental. Ela apenas dormiu. Não teve sequer o trabalho de guardar o celular. Tava ali, na mão da menina. Que confiança era aquela que o povo tinha de não ser roubado, de poder dar mole no trem, sequer de não saber o que significa dar mole?

(O segundo milagre da noite foi que, assim que o trem parou em alguma estação que ainda não era a minha, a menina repentinamente acordou e foi embora. Estava dormindo e sabia de algum jeito que tinha chegado sua estação. Nunca entenderei.)

Assim que ela saiu do trem, demorou um tempo para finalmente entender o que tinha acontecido. Fiquei com muita vergonha. O Japão é um país tão seguro e arrumadinho que as pessoas se dão ao luxo de dormir com coisas de valor na mão. E eu, na minha mentalidade brasileira, imaginando se não poderia aparecer um trombadinha japonês, que pegaria o celular e sairia correndo. A questão é que, nos quase vinte dias que passei no Japão, não vi nenhum trombadinha.

Esse é mais um dos pontos que me fascinaram naquele lugar. O país é seguro. Os carros não tem vidros pretos ‘por questão de segurança’, as pessoas não andam agarradas às suas coisas nas ruas, nem tem a preocupação de tirar correntinhas. Elas seguram seus telefones com naturalidade, põem seus fones e sabem que não vai chegar ninguém pedindo um real com uma faca na cintura.

E foi exatamente por isso que eu fiquei com vergonha quando a menina saiu do trem e foi embora. Com vergonha e com inveja, porque no Brasil, além de não termos um bom trem pra andar, e ainda que tivéssemos, não temos essa fleuma oriental de poder andar tranquilamente com um celular na mão, usando fones, lendo o que quer que seja. Em qualquer estação, quando elas existem, é preciso ficar ligado, prestando atenção pra ver se não tem pessoas com atitude suspeita, ligado até na rua, vendo se não passam dois caras numa moto e ou num Gol branco. Os carros da gente tem esse filme preto que não só protege quem está dentro como também acoberta tantas outras maldades. A gente vive com medo, sempre ouvindo histórias de violência e de malandragem, pura poluição mental. Que grande saco isso, que desperdício de energia.

O Japão, por seu turno, tem certamente muitos outros problemas, mas está bem de boa na parte da segurança. Tanto que a própria polícia não parece ter muito o que fazer lá além de ajudar gente perdida. Aqui aparentemente estão faltando policiais e cadeias pra prender tanto bandido. Existe alguma coisa que possa ser feita para que o Brasil pare de ser um país de medo e seja um país realmente seguro e pronto pro futuro?

Certamente muita gente dirá que a educação é o caminho para isso. Com mais gente bem instruída, teríamos mais chance de gerar conhecimentos que nos tirassem desse poço de lama moral em que nos encontramos. Mas só isso não vai ser o bastante. É preciso ir além e perceber que, no geral, não somos tão bons quanto poderíamos ser enquanto brasileiros. Temos essa mania de pensar que nossos pequenos deslizes do dia a dia não vão impactar no quadro geral do País.

As tramoinhas de cada dia, as intrigas, os filmes piratas, o lixo no chão, os gatos no trânsito, as notas frias, os adultérios, os achados não roubados – essas e tantas outras coisinhas vão se acumulando pra construir o País em que os carros tem vidros pretos, em que as pessoas não podem dormir no trem com o celular na mão, nem caminhar à noite despreocupadamente.

Passou da hora de parar de negociar valores, pois ao fazer isso, apostamos não só a nossa paz, como também a de nossos irmãos e filhos. Uma sociedade menos individualista e mais voltada ao cuidado do outro tem muito a ganhar tanto em segurança quanto em qualquer outro aspecto que se possa imaginar. E aí? Dá para contar com essa evolução no Brasil ou vou precisar esconder meu celular se quiser dormir no trem?

 

Fui ao futuro e voltei. Eis o que aprendi

junho 8, 2017

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Os meses de abril e maio foram bem agitados. Aconteceu tanta coisa na minha vida que posso dizer seguramente que estou mudado. Foi uma jornada interessante da qual eu ainda não retornei, e não sei se o farei algum dia. Einstein explica. É possível ir ao futuro, mas não retornar ao passado.
No final de abril eu participei de um curso chamado “Friends of Tomorrow”, que tratou de desvendar um pouco do que se espera do futuro. Como vamos trabalhar e viver daqui a dez anos? Difícil dizer, e isso é ótimo. Há algumas pistas, porém o mais importante não é o como, e sim o porquê.
Veja, o dinheiro é uma coisa boa, um recurso necessário em vários níveis. Porém, vale lembrar a advertência divina: é no apego à grana que começam os problemas. De fato, embora desejável, não é preciso ser crente para entender que a moeda do futuro não é o montante de dinheiro que uma pessoa é capaz de gerar, mas o número de pessoas que ela ajuda.
No futuro, a galera está ligada em resolver os problemas do presente. Isso naturalmente gera interesse, que gera dinheiro, mas não é esse o propósito final, entende? As pessoas que pensam o futuro querem resolver problemas para que, depois de resolvê-los, possam resolver outros. São ciclos de aprendizado que se empilham, de forma que, ao começar um novo, não se começa do zero, mas de toda a bagagem já adquirida. O potencial exponencial desse conhecimento ainda não pode ser calculado. Ainda.
O curso sozinho já renderia um bom post, e falarei mais sobre ele, mas para completar o caldeirão, quis a providência divina que, logo depois do curso, eu fosse para o Japão.
Sim, o Japão, terra de tradições ancestrais e de tecnologia de ponta. Por estranho que pareça, é assim que eles vivem lá, e isso acontece de forma organizada.
São 140 milhões de habitantes e mais alguns milhares de turistas espremidos numa linguiça de país. Em muita coisa eles parecem estar no futuro em relação a nós, brasileiros no Brasil. Seria fácil apelar para o fuso horário, mais fácil ainda para acompanharmos se fosse só essa a diferença temporal. A questão é que o Japão está muitos anos à frente do Brasil em termos de organização da sociedade, de infraestrutura e de pensamento coletivo.
Os japoneses dominaram a arte do espírito de grupo. São extremamente educados e polidos, sabem seu lugar e trabalham muito duro. Não por acaso, sabem exigir e produzir qualidade.
É de saltar aos olhos também a consideração que eles têm por todos. Como tudo que tem lá, para pior ou melhor, eles levaram isso um passo à frente e eis que existe uma grande valorização da gratidão, da humildade. É muito bonito ver o nível de respeito que existe no Japão, simplesmente de encher os olhos – e está nos detalhes, como o inclinar-se em sinal de gratidão, e como pegar o cartão ou o dinheiro com as duas mãos. Fico feliz e grato em saber que posso levar um pouco disso para o Brasil.
Por falar no nosso País, é triste perceber que, das coisas que mencionei aqui, conhecemos apenas, e ainda assim pouco, o trabalho duro. Não temos ainda ideia do que seja viver como um país unido, coeso e pronto à solidariedade. Assim, vidrados em individualismos e polaridades, também perdemos em grande medida o respeito e não fazemos ideia do que seja a excelência em escala macro.

Isso não quer dizer que o Brasil seja um país ruim. Ao contrário, quando voltei, passei a dar muito mais valor a coisas simples, como o sol, o suco de laranja e o espaço que temos. Pode acreditar, esses detalhes fazem uma falta danada em países muito mais ricos do que nós, e dou muitas graças a Deus por poder morar aqui. Se mesmo assim o Brasil já é bom demais, imagine quando aprendermos mais sobre tenacidade e educação.
É seguro, porém, dizer que, em relação ao Brasil, hoje o Japão está no futuro, muitos e muitos anos à frente, não obstante as enormes desvantagens em forma de duas bombas atômicas e de muitos terremotos. É seguro também dizer que, mantidos os ritmos dos dois países, nunca chegaremos a alcançá-los. Existe, porém, uma ferramenta importante: o pensamento exponencial. Ele terá grande utilidade se soubermos usá-lo.
Uma das peculiaridades do futuro, por fim, é a dificuldade de enxergá-lo. Alguma coisa acontece, surpresas surgem, não sabemos de onde vem o tiro. Existe, porém, uma certeza: ele chega. Stephen Hawking já nos alertou que a seta psicológica do tempo só tem uma direção. Quão preparados estamos para viver essa realidade?

Vejo você no futuro.

future

 

Crianças são relógios

abril 20, 2017

crianças relogio

(video)

“Meu despertador é meu filho”. Que pai ou mãe nunca disse isso? Mesmo não tendo filhos, consigo me identificar facilmente com essa frase. As crianças, longe de ser meros despertadores espontâneos, guardam uma relação muito mais profunda com o tempo.

Minha quase sobrinha nasceu em 2015, um dia depois do meu aniversário. É uma menininha linda, quase completando seus dois anos de vida. E é incrível como ela cresce rápido, como toda vez que a vejo ela está um pouquinho maior, mais esperta, mais alegre! Enquanto isso, os únicos indicadores visuais no meu corpo de que dois anos passaram foi a ausência do meu cabelão, que há dois anos batia nos ombros, e a aparição de alguns fios brancos.

Quando chegamos à idade adulta, que começa precisamente a partir dos vinte e tantos anos, parece rolar uma estagnação na vida. Tirando eventuais exceções, nossa aparência permanece mais ou menos a mesma até os cinquenta e tantos. É nessa fase que podemos cair na armadilha da estagnação e ver os anos passarem sem muita emoção. Perceba que minhas descrições aqui foram nebulosas exatamente porque não sabemos exatamente quando paramos de ver mudança no nosso corpo.

As crianças, porém, são uma solução biológica para esse problema. Elas crescem rapidamente, sua aparência e seu comportamento mudam todos os dias. Em seus rostinhos e corações nós vemos o tempo passar. São relógios vivos e interativos que não nos deixam esperar passivamente a correr do tempo.

Vão ganhando altura, mudando a voz, as feições, as roupas e os gostos. Em nós vão aparecendo as rugas, as olheiras, os cabelos brancos, o cansaço. Mas ao vê-las no processo de crescimento, e principalmente ao influenciá-las nessa jornada, temos a certeza de que nossa vida realmente foi relevante na de outra pessoa e de que conseguimos transmitir algo de valor para aqueles que hão de nos suceder.

Não é preciso ter filhos para perceber isso. Como já disse, eu mesmo não sou pai. Porém existe beleza em todo esse processo. É bom ver o tempo passando de uma forma que não seja por meio de ponteiros ou números. De fato, a oportunidade de ver os filhos e sobrinhos crescerem é um privilégio que muitos hoje não tem. E o que eles não dariam pra poder ao menos olhar nos olhos desses reloginhos todos os dias…

Piadas deprimentes

março 8, 2017

baby(fonte do GIF)

O que não falta na internet é piada, e isso é ótimo. Eu mesmo sou um grande fã de piadas ruins. Porém, existe um tipo de anedota que, graças à rede mundial de ventiladores, tem ganhado ares de sufocamento. As piadinhas deprimentes, longe de qualquer alívio cômico, parecem nos afundar ainda mais nas agonias diárias de uma vida urbana comum.

São aquelas piadas que fazem troça dos dilemas que um adulto normal enfrenta no dia-a-dia. Buscando a mais ampla identificação possível, não oferecem solução para o problema, mas uma indulgência leve e ineficaz. Em resumo, ele continua lá, sendo sofrido e escarnecido por muita gente, mas nunca resolvido.

E isso cansa. É como carregar pesinhos leves que vão se acumulando, até que o conjunto todo fique pesado demais. Vemos outras pessoas corcundas de tanto labutar e pensamos “esse aí sou eu na vida”, “o corcunda destroncado do vídeo sou eu e os pesos são a vida”.

O que realmente me incomoda nessas piadas é o caráter derrotista e a mensagem velada de desesperança que elas passam. “Sou de humanas, logo não sei fazer contas”,”acaba logo, 2016″, “minha vida nesse momento”, “eu sou o gato e a vida é o armário”, “queria estar dormindo, mas vou tomar esse suco de lágrimas de toda segunda-feira”… São frasezinhas pequenas, mas que vão se acumulando pra formar ideias, opiniões, sistemas, ações e vidas.

Seria mais fácil ignorar essas bombinhas de desânimo e ficar na minha, mas não. Que fique claro: é possível viver sem tanto chorinho disfarçado, sem tantas pequenas angústias! Esses problemas que todo mundo passa precisam ser enfrentados. Faz parte da vida sofrer contratempos e revezes; não precisamos carregar tanto desalento por coisas banais.

Já bastam os problemas de verdade – esses, sim, merecem atenção e discussão séria. E se o buraco for mais embaixo ainda, é preciso buscar ajuda profissional.  Quanto aos incômodos e estresses de todos os dias, é possível resolver boa parte deles com um pouco de organização, começando por pegar papel e caneta e escrever tudo.

Bem mandou a letra o apóstolo Paulo, quando disse que “se a nossa esperança [em Cristo] se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens” – sobre isso existe muito que falar. Por ora, resta apenas dizer que a comédia tem muitos matizes. Cuidado com essas piadinhas aparentemente inofensivas que fazem rir e chorar, e mais nada.  Pode ser que, por simplesmente ler e compartilhar uma delas, você já esteja embrulhado num papel de trouxa.

Como vai seu lixo?

fevereiro 15, 2017

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Com a vírgula certa, o título poderia ser uma indireta. O que hoje trago, porém, é uma mensagem direta e reta para todo mundo. Lixo é assunto complicado na sociedade. É fedido, volumoso, um estorvo. Talvez por isso tenha se tornado um assunto merecedor da mais nobre atenção.

Ao mesmo tempo, é notável o peso que damos à higiene pessoal. Queremos estar cheirosinhos, bonitinhos e arrumados na maior parte do tempo. Nossas ruas, no entanto, não ecoam tamanha necessidade de limpeza. Ao contrário, vemos papeis, bitucas, pedaços de plantas, móveis e restos de comida espalhados por aí.

O lixo é extremamente democrático porque permite a participação de todas as pessoas – afinal, todo mundo gera lixo, e não estou falando do cocô. Assim que você consome alguma coisa, digamos, uma balinha, o papelzinho torna-se um problema a ser resolvido. Naquele instante, o destino daquele troço indesejado está em suas mãos, e é sua responsabilidade determinar para onde ele vai, se para a lata correta ou para a calçada.

Naturalmente, a forma como abordamos o problema do lixo diz muito sobre como resolvemos as coisas. Note que, no momento em que o dito papelinho sai da sua mão, ele não deixa de ser problema seu. Onde quer que seja lançado, o lixo não desaparece simplesmente. A questão é se ele vai ou não te dar trabalho daquele momento em diante.

Não é por outra razão que vemos bocas de lobo entupidas, lotes cheios de mato e de detritos, e um alastramento de doenças como a dengue e a zika. As enxurradas e os hospitais lotados também são flagrantes reflexos de que nossa higiene coletiva está mal das pernas, isso para não mencionar as garrafas de cerveja e os potinhos de iogurte que lamentavelmente hoje habitam cachoeiras e praias.

E dá para fazer alguma coisa em relação a isso? Dá, sim. Dá para esperar alguns minutos até achar uma lata de lixo. Dá para separar minimamente o lixo orgânico do lixo reciclável. Dá para destinar corretamente o resto de construção. E dá para catar o cocozinho do cachorro quando você o levar pra passear. São medidas simples, rápidas e fáceis, sem mistério. Difícil mesmo é entender como ainda tentamos permanecer asseados e perfumados enquanto atiramos coisas pelas janelas de nossos carros brilhantes.

A minha geração já nasceu ouvindo que fumar faz mal e que lugar de lixo é no lixo. O conhecimento que os mais velhos ralaram e morreram para conseguir nós recebemos desde o berço, e aparentemente o ignoramos. Está na hora de elevarmos o nível de consciência em relação ao descarte do lixo. Algo não cheira bem, e está literalmente em nossas mãos mudar essa realidade.