Fui ao futuro e voltei. Eis o que aprendi

junho 8, 2017

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Os meses de abril e maio foram bem agitados. Aconteceu tanta coisa na minha vida que posso dizer seguramente que estou mudado. Foi uma jornada interessante da qual eu ainda não retornei, e não sei se o farei algum dia. Einstein explica. É possível ir ao futuro, mas não retornar ao passado.
No final de abril eu participei de um curso chamado “Friends of Tomorrow”, que tratou de desvendar um pouco do que se espera do futuro. Como vamos trabalhar e viver daqui a dez anos? Difícil dizer, e isso é ótimo. Há algumas pistas, porém o mais importante não é o como, e sim o porquê.
Veja, o dinheiro é uma coisa boa, um recurso necessário em vários níveis. Porém, vale lembrar a advertência divina: é no apego à grana que começam os problemas. De fato, embora desejável, não é preciso ser crente para entender que a moeda do futuro não é o montante de dinheiro que uma pessoa é capaz de gerar, mas o número de pessoas que ela ajuda.
No futuro, a galera está ligada em resolver os problemas do presente. Isso naturalmente gera interesse, que gera dinheiro, mas não é esse o propósito final, entende? As pessoas que pensam o futuro querem resolver problemas para que, depois de resolvê-los, possam resolver outros. São ciclos de aprendizado que se empilham, de forma que, ao começar um novo, não se começa do zero, mas de toda a bagagem já adquirida. O potencial exponencial desse conhecimento ainda não pode ser calculado. Ainda.
O curso sozinho já renderia um bom post, e falarei mais sobre ele, mas para completar o caldeirão, quis a providência divina que, logo depois do curso, eu fosse para o Japão.
Sim, o Japão, terra de tradições ancestrais e de tecnologia de ponta. Por estranho que pareça, é assim que eles vivem lá, e isso acontece de forma organizada.
São 140 milhões de habitantes e mais alguns milhares de turistas espremidos numa linguiça de país. Em muita coisa eles parecem estar no futuro em relação a nós, brasileiros no Brasil. Seria fácil apelar para o fuso horário, mais fácil ainda para acompanharmos se fosse só essa a diferença temporal. A questão é que o Japão está muitos anos à frente do Brasil em termos de organização da sociedade, de infraestrutura e de pensamento coletivo.
Os japoneses dominaram a arte do espírito de grupo. São extremamente educados e polidos, sabem seu lugar e trabalham muito duro. Não por acaso, sabem exigir e produzir qualidade.
É de saltar aos olhos também a consideração que eles têm por todos. Como tudo que tem lá, para pior ou melhor, eles levaram isso um passo à frente e eis que existe uma grande valorização da gratidão, da humildade. É muito bonito ver o nível de respeito que existe no Japão, simplesmente de encher os olhos – e está nos detalhes, como o inclinar-se em sinal de gratidão, e como pegar o cartão ou o dinheiro com as duas mãos. Fico feliz e grato em saber que posso levar um pouco disso para o Brasil.
Por falar no nosso País, é triste perceber que, das coisas que mencionei aqui, conhecemos apenas, e ainda assim pouco, o trabalho duro. Não temos ainda ideia do que seja viver como um país unido, coeso e pronto à solidariedade. Assim, vidrados em individualismos e polaridades, também perdemos em grande medida o respeito e não fazemos ideia do que seja a excelência em escala macro.

Isso não quer dizer que o Brasil seja um país ruim. Ao contrário, quando voltei, passei a dar muito mais valor a coisas simples, como o sol, o suco de laranja e o espaço que temos. Pode acreditar, esses detalhes fazem uma falta danada em países muito mais ricos do que nós, e dou muitas graças a Deus por poder morar aqui. Se mesmo assim o Brasil já é bom demais, imagine quando aprendermos mais sobre tenacidade e educação.
É seguro, porém, dizer que, em relação ao Brasil, hoje o Japão está no futuro, muitos e muitos anos à frente, não obstante as enormes desvantagens em forma de duas bombas atômicas e de muitos terremotos. É seguro também dizer que, mantidos os ritmos dos dois países, nunca chegaremos a alcançá-los. Existe, porém, uma ferramenta importante: o pensamento exponencial. Ele terá grande utilidade se soubermos usá-lo.
Uma das peculiaridades do futuro, por fim, é a dificuldade de enxergá-lo. Alguma coisa acontece, surpresas surgem, não sabemos de onde vem o tiro. Existe, porém, uma certeza: ele chega. Stephen Hawking já nos alertou que a seta psicológica do tempo só tem uma direção. Quão preparados estamos para viver essa realidade?

Vejo você no futuro.

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Crianças são relógios

abril 20, 2017

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“Meu despertador é meu filho”. Que pai ou mãe nunca disse isso? Mesmo não tendo filhos, consigo me identificar facilmente com essa frase. As crianças, longe de ser meros despertadores espontâneos, guardam uma relação muito mais profunda com o tempo.

Minha quase sobrinha nasceu em 2015, um dia depois do meu aniversário. É uma menininha linda, quase completando seus dois anos de vida. E é incrível como ela cresce rápido, como toda vez que a vejo ela está um pouquinho maior, mais esperta, mais alegre! Enquanto isso, os únicos indicadores visuais no meu corpo de que dois anos passaram foi a ausência do meu cabelão, que há dois anos batia nos ombros, e a aparição de alguns fios brancos.

Quando chegamos à idade adulta, que começa precisamente a partir dos vinte e tantos anos, parece rolar uma estagnação na vida. Tirando eventuais exceções, nossa aparência permanece mais ou menos a mesma até os cinquenta e tantos. É nessa fase que podemos cair na armadilha da estagnação e ver os anos passarem sem muita emoção. Perceba que minhas descrições aqui foram nebulosas exatamente porque não sabemos exatamente quando paramos de ver mudança no nosso corpo.

As crianças, porém, são uma solução biológica para esse problema. Elas crescem rapidamente, sua aparência e seu comportamento mudam todos os dias. Em seus rostinhos e corações nós vemos o tempo passar. São relógios vivos e interativos que não nos deixam esperar passivamente a correr do tempo.

Vão ganhando altura, mudando a voz, as feições, as roupas e os gostos. Em nós vão aparecendo as rugas, as olheiras, os cabelos brancos, o cansaço. Mas ao vê-las no processo de crescimento, e principalmente ao influenciá-las nessa jornada, temos a certeza de que nossa vida realmente foi relevante na de outra pessoa e de que conseguimos transmitir algo de valor para aqueles que hão de nos suceder.

Não é preciso ter filhos para perceber isso. Como já disse, eu mesmo não sou pai. Porém existe beleza em todo esse processo. É bom ver o tempo passando de uma forma que não seja por meio de ponteiros ou números. De fato, a oportunidade de ver os filhos e sobrinhos crescerem é um privilégio que muitos hoje não tem. E o que eles não dariam pra poder ao menos olhar nos olhos desses reloginhos todos os dias…

Piadas deprimentes

março 8, 2017

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O que não falta na internet é piada, e isso é ótimo. Eu mesmo sou um grande fã de piadas ruins. Porém, existe um tipo de anedota que, graças à rede mundial de ventiladores, tem ganhado ares de sufocamento. As piadinhas deprimentes, longe de qualquer alívio cômico, parecem nos afundar ainda mais nas agonias diárias de uma vida urbana comum.

São aquelas piadas que fazem troça dos dilemas que um adulto normal enfrenta no dia-a-dia. Buscando a mais ampla identificação possível, não oferecem solução para o problema, mas uma indulgência leve e ineficaz. Em resumo, ele continua lá, sendo sofrido e escarnecido por muita gente, mas nunca resolvido.

E isso cansa. É como carregar pesinhos leves que vão se acumulando, até que o conjunto todo fique pesado demais. Vemos outras pessoas corcundas de tanto labutar e pensamos “esse aí sou eu na vida”, “o corcunda destroncado do vídeo sou eu e os pesos são a vida”.

O que realmente me incomoda nessas piadas é o caráter derrotista e a mensagem velada de desesperança que elas passam. “Sou de humanas, logo não sei fazer contas”,”acaba logo, 2016″, “minha vida nesse momento”, “eu sou o gato e a vida é o armário”, “queria estar dormindo, mas vou tomar esse suco de lágrimas de toda segunda-feira”… São frasezinhas pequenas, mas que vão se acumulando pra formar ideias, opiniões, sistemas, ações e vidas.

Seria mais fácil ignorar essas bombinhas de desânimo e ficar na minha, mas não. Que fique claro: é possível viver sem tanto chorinho disfarçado, sem tantas pequenas angústias! Esses problemas que todo mundo passa precisam ser enfrentados. Faz parte da vida sofrer contratempos e revezes; não precisamos carregar tanto desalento por coisas banais.

Já bastam os problemas de verdade – esses, sim, merecem atenção e discussão séria. E se o buraco for mais embaixo ainda, é preciso buscar ajuda profissional.  Quanto aos incômodos e estresses de todos os dias, é possível resolver boa parte deles com um pouco de organização, começando por pegar papel e caneta e escrever tudo.

Bem mandou a letra o apóstolo Paulo, quando disse que “se a nossa esperança [em Cristo] se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens” – sobre isso existe muito que falar. Por ora, resta apenas dizer que a comédia tem muitos matizes. Cuidado com essas piadinhas aparentemente inofensivas que fazem rir e chorar, e mais nada.  Pode ser que, por simplesmente ler e compartilhar uma delas, você já esteja embrulhado num papel de trouxa.

Como vai seu lixo?

fevereiro 15, 2017

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Com a vírgula certa, o título poderia ser uma indireta. O que hoje trago, porém, é uma mensagem direta e reta para todo mundo. Lixo é assunto complicado na sociedade. É fedido, volumoso, um estorvo. Talvez por isso tenha se tornado um assunto merecedor da mais nobre atenção.

Ao mesmo tempo, é notável o peso que damos à higiene pessoal. Queremos estar cheirosinhos, bonitinhos e arrumados na maior parte do tempo. Nossas ruas, no entanto, não ecoam tamanha necessidade de limpeza. Ao contrário, vemos papeis, bitucas, pedaços de plantas, móveis e restos de comida espalhados por aí.

O lixo é extremamente democrático porque permite a participação de todas as pessoas – afinal, todo mundo gera lixo, e não estou falando do cocô. Assim que você consome alguma coisa, digamos, uma balinha, o papelzinho torna-se um problema a ser resolvido. Naquele instante, o destino daquele troço indesejado está em suas mãos, e é sua responsabilidade determinar para onde ele vai, se para a lata correta ou para a calçada.

Naturalmente, a forma como abordamos o problema do lixo diz muito sobre como resolvemos as coisas. Note que, no momento em que o dito papelinho sai da sua mão, ele não deixa de ser problema seu. Onde quer que seja lançado, o lixo não desaparece simplesmente. A questão é se ele vai ou não te dar trabalho daquele momento em diante.

Não é por outra razão que vemos bocas de lobo entupidas, lotes cheios de mato e de detritos, e um alastramento de doenças como a dengue e a zika. As enxurradas e os hospitais lotados também são flagrantes reflexos de que nossa higiene coletiva está mal das pernas, isso para não mencionar as garrafas de cerveja e os potinhos de iogurte que lamentavelmente hoje habitam cachoeiras e praias.

E dá para fazer alguma coisa em relação a isso? Dá, sim. Dá para esperar alguns minutos até achar uma lata de lixo. Dá para separar minimamente o lixo orgânico do lixo reciclável. Dá para destinar corretamente o resto de construção. E dá para catar o cocozinho do cachorro quando você o levar pra passear. São medidas simples, rápidas e fáceis, sem mistério. Difícil mesmo é entender como ainda tentamos permanecer asseados e perfumados enquanto atiramos coisas pelas janelas de nossos carros brilhantes.

A minha geração já nasceu ouvindo que fumar faz mal e que lugar de lixo é no lixo. O conhecimento que os mais velhos ralaram e morreram para conseguir nós recebemos desde o berço, e aparentemente o ignoramos. Está na hora de elevarmos o nível de consciência em relação ao descarte do lixo. Algo não cheira bem, e está literalmente em nossas mãos mudar essa realidade.

 

Todo mundo deveria guiar moto

setembro 2, 2016

De julho de 2015 a junho de 2016 eu realizei o grande sonho de ter uma motocicleta. Era linda, verdinha e potente. Comprei todos os paramentos iniciais para a prática do hobby e fui dar minhas voltas por aí.

De fato, fui feliz com a motinho. Pilotar é uma coisa maravilhosa. Uma coisa, porém, sempre me tirou um pouco desse prazer: a necessidade de estar atento a tudo e a todos o tempo todo, tentando prever os movimentos dos veículos que me rodeavam.

E eu tinha boas razões para isso. Participei do velório de um companheiro de rodas e me entristeci enormemente quando soube que outro, ainda mais cuidadoso do que eu, morreu de forma absolutamente evitável, num momento de distração e de irresponsabilidade de outra pessoa.

São tempos de loucura. Pessoas sob pressão, agitadas, apertadas, na disputa por um lugar ou mesmo por uma promessa de paz. Some-se a isso um controle frouxo do tráfego de indivíduos e de veículos nos grandes centros urbanos e o resultado é um ambiente caótico, perigoso e potencialmente catastrófico.

É por isso que seria legal se todo mundo tivesse a oportunidade de guiar uma motoca quando vai tirar ou renovar a habilitação. Com muito menos proteção e volume, seria um benéfico exercício se colocar na posição de menor e de mais fraco, sempre concorrendo em espaço com veículos maiores e, muitas vezes, mais cegos.

Além disso, em cima de uma motocicleta, não existe existe a escolha de guiar mal. Ou a pessoa aprende o que está fazendo ou cai. Passei por isso numa queda boba dentro de uma rotatória. Pra aprender a pilotar, fui atrás de cursos que ensinassem  as técnicas adequadas de acelerar, de frear e de fazer curvas em altas e baixas velocidades. Aprendi lições valiosas, que usei tanto ao guidão quanto ao volante.

No carro, às vezes nos permitimos certos caprichos de atenção porque inconscientemente sabemos que, na pior das hipóteses, vamos arranhar um paralama. Achamos também que é tranquilo fazer barbeiragens aqui e ali porque todo mundo está sujeito a isso. Um proteção egoísta assim nos faz ignorar que outros veículos também utilizam a rua e que as pessoas que estão neles tem o mesmo direito à segurança e à chegada certa ao seu destino. Não custa lembrar, inclusive, que os veículos maiores são responsáveis pela segurança dos menores.

Isso não quer dizer que carros e caminhões sempre estejam errados e que usuários de motos são bons e perspicazes seguidores da lei. Ao contrário, muitos destes não aparentam o menor apreço às leis e às suas vidas, o que também é prejudicial para o convívio minimamente civilizado quando se fala de deslocamento motorizado. As autoescolas até fazem um bom trabalho mostrando filminhos sinistros de acidentes, mas aparentemente essa estratégia não tem surtido muito efeito em quem quer colocar a própria vida em risco desnecessariamente.

Apesar de todos os perigos e da triste estatística dos acidentes envolvendo as motocicletas, pretendo ter outra moto no futuro, se Deus permitir. Até lá, tenho a esperança de ver, de fazer e de inspirar um trânsito menos perigoso e mais humano para todo mundo. É cansativo e custoso ter de tratar as ruas como campos de batalha. Espero que, no futuro, elas sejam, pelo menos na maior parte do tempo, aquilo que nasceram para ser: caminhos pacíficos.

Parada dura

agosto 18, 2016

Dia 13 de agosto de 2015, mais ou menos às 10h04min. Era um dia quente de agosto e eu voltava do curso de pilotagem, sem imaginar que presenciaria um dos fatos mais aterrorizantes de minha vida. Meu pai, que já estava se sentindo mal depois de correr, sofreu uma parada cardíaca fulminante. Não havia muito que eu e minha mãe pudéssemos fazer a não ser orar, massagear e facilitar o caminho da equipe de resgate, e foi o que a gente fez.

Quando o Samu chegou, ele já estava branco, a pele estava fria, com as veias aparecendo por baixo. Enquanto os socorristas administravam os remédios e preparavam o desfibrilador, minha mãe chorava e eu ficava olhando, ainda incrédulo, meu pai deitado ali no chão, sem reação; parecia que as engrenagens do tempo haviam enferrujado e que nada acontecia.

E aí ele acordou! Já falando e querendo tirar o nebulizador do rosto, foi amarrado a uma maca e levado pro Hospital de Base. Fiquei com a incumbência de passar o recado pro Marcos, e assim fiz. Quis correr até o hospital, mas naquele ponto não adiantaria, e eu poderia causar mais um problema.

Lá, esperamos o cateterismo, que foi rápido. Meu pai depois foi levado pro ambulatório, onde ficaria até quase a noite. Ainda suado, fraco e abatido, não conseguia comer nada, e ali ficamos. O tempo engessou de novo. Sem fome, eu também mal comia – ficava atento esperando o que haveria de acontecer, como um computador que verifica a cada instante o status dos processos. Eu e o monitor cardíaco já estávamos amigos.

Aí chegou a hora de ele ser transferido pra UTI, no Instituto do Coração, onde ficaria mais uns dias. Mas ali eu não podia entrar, porque estava de bermuda – ah, as formalidades… Depois de fechados os detalhes da transferência, trouxe minha mãe pra casa. Estávamos anestesiados com o que havia acontecido.

Nos dias seguintes, meu pai recobrou o ânimo e a cor. Fortaleceu-se o suficiente para receber alta, e assim viemos para casa. Sua recuperação seria longa, e ele a seguiu passo a passo, caminhando todos os dias até restabelecer seu condicionamento e voltar a dar suas pernadas.

Um ataque cardíaco nele foi uma grande surpresa. O homem é um corredor experiente, saía voando por aí, mais veloz que muito garotão, que eu inclusive. E foi bem a ele que sobreveio essa dificuldade.

O que dizer de tamanha experiência? Difícil pensar em algo. Alguns médicos disseram que pouca gente sobrevive a um ataque dessa magnitude, e mesmo quando consegue, não fica muito bem depois. Ele, porém, está aí, correndo, palestrando e, junto com minha mãe, ensinando muita gente a escrever e a lidar com suas dívidas. Continua vivendo, frutificando e puxando minha orelha.

Foi mesmo um milagre todo preparado. Deus cuidou de tudo naquelas horas difíceis, e ainda cuida. De momentos assim tiramos lições valiosas, coisas que os livros não podem explicar sobre a preciosidade do tempo, da saúde e das pessoas. Espero um dia ter a grandeza desse homem, já me considerando feliz por ter o privilégio de contar um pouco de sua história.

(Revisão: Camila)

 

Porta de vidro

julho 25, 2016

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Era fim de tarde. Depois de passar um tempo cozinhando nas piscinas quentes de Caldas Novas, eu retornara ao apartamento que havíamos alugado e tinha acabado de tomar um banho frio. Já vestido, peguei o celular e me dirigi à varanda pra ver o movimento. Olhei rapidamente a entrada e fui, mas não cheguei imediatamente ao meu destino. Tinha uma porta de vidro no meu caminho.

O impacto físico abrangeu a colisão simultânea de todo um corpo displicente: testa, nariz, braço, bacia, joelho, dedão. Não foi bonito, não foi tranquilo. Fez barulho e doeu, mas que bom que eu estava sozinho e que nenhum outro olho humano presenciou aquela cena por demais anedótica. A jovem que ilustra este post não teve a mesma sorte.

Falando em sorte, fico agradecido por duas coisas que não aconteceram e que poderiam ter complicado minha vida e melado a viagem de todo mundo. A primeira é que o vidro não quebrou; tivesse quebrado, pense na dor de cabeça. E não estou falando só de pagar uma porta nova, mas dos cortes que eventualmente eu poderia ter – tenho experiência nesse assunto, inclusive, mas não percamos o foco. A segunda é que o vidro não descarrilou, e ficou absolutamente impassível em seus trilhos, esperando que outra alma desatenta por ali passasse para aprontar a mesma pegadinha.

Estou até pensando em processar aquela porta pelo dano moral que me causou. Sim, fui atingido na minha psique por aquele vidro dissimulado. Pior que bater numa porta de vidro é a vergonha depois. Pior ainda é a dúvida em saber quem bateu em quem.

Estava bem ali, na frente do meu nariz, e sequer foi percebida. Quantas coisas na vida não são assim… O caminho parece limpo e fácil, mas tem uma barreira invisível à frente, parcamente denunciável apenas pelas bordas e esquadrias espertamente integradas à parede limítrofe e tontamente ignoradas por quem se atreve a atravessá-las sem o devido cuidado.

No fim, deu tudo certo: ninguém ficou ferido no episódio. Falo por mim, mas a porta também parece estar em boas condições. A situação toda serviu para tirar uma lição valiosa: é bom ficar ligado nas transições de ambiente. Por mais que o caminho pareça garantido, pode haver detalhes que estão sendo ignorados. E assim, entre cabeçadas e topadas, seguimos.

 

 

Hoje não estou a fim

julho 15, 2016


Hoje não estou com vontade de escrever. Não tenho um tema, uma novidade, não tenho uma mensagem estruturada. 

Porém escrevo. Escrevo porque a consciência manda, porque o dever se impõe. Em meio a marretadas hoje desmotivadas, mas presentes, forjo mais um post do meu blog. 

Mas por quê? Para quê? Por disciplina, para regularidade. Não ganho dinheiro. Meu benefício é treinar o fazer alguma coisa mesmo sem vontade. Claro que isso não se aplica a todas as áreas da vida, mas às atividades que, mesmo em dias de enfado, contribuem para melhorar alguma habilidade. 

E eu acredito nisso. Acredito na prática persistente e constante, na rotina bem assentada e no foco, embora este último seja o mais difícil ponto a se conquistar depois da internet. 

Por tudo isso estou aqui, já com a boca virtual quase seca de tanto falar abobrinhas. Mas serão mesmo abobrinhas? Não sei. Algumas obras que outros autores consideraram abobrinhas foram boas para mim; quem sabe não haja qualquer utilidade ou valor que seja nesse pergaminho virtual para quem lê? Novamente não sei, a menos que me contem. 

Hoje eu não estou a fim, mas estou aqui. Se Deus me deu palavras para falar, então falarei. Posso falar bastante dEle, inclusive, e de tudo quanto tem feito na minha vida, porém um assunto tão belo merece um post mais bonito. Hoje eu estou só para cumprir tabela, porém porteiros cumprindo tabela receberam encomendas e alegraram pessoas. Enfermeiros cumprindo tabela mantiveram gente viva, e engenheiros cumprindo tabela ajudaram a construir mais edificações. Quem sabe eu, cumprindo tabela num blog, não ajudo alguém do outro lado? 

Poluição mental

julho 7, 2016

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Não é novidade que tratamos a Terra como lixo. Na verdade, já ultrapassamos seu limite de renovação  e agora estamos na fase do predatismo planetário irrestrito. Para ajudar nessa tarefa nada honrosa, porém demasiado hercúlea, fazemos isso agora no nível individual, consumindo coisas de que não precisamos e enchendo nossas vidas de informações desnecessárias.

O problema hoje não é qualidade, e sim quantidade de conteúdo. Tem tanta coisa o tempo todo pra ver que acabamos nos entulhando de coisa inútil todos os dias. Ficamos cansados de ver coisas que nem imaginávamos, especialmente quando se trata de notícias ruins. Não queríamos saber que alguém morreu de forma terrível em outro rincão do Brasil, mas sabemos e comentamos. Falta de Deus na vida da pessoa, bandido tem de morrer, esse aí vai sentar no colo do capeta…

Existe um fenômeno chamado “target fixation”, ou fixação de alvo, muito conhecido nos mundos do motociclismo e da aviação. Basicamente significa que fixamos como alvo um obstáculo que queremos evitar, e o alcançamos. Por paradoxal que pareça, já foi a causa de queda de muitos, e nos assola mesmo quando não estamos sobre duas rodas.

Por outro lado, temos os contantes anúncios por toda parte, que em tese são pensados para nos trazer utilidade. E temos visto uma tonelada deles todos os dias, não importa em que mídia estejamos. Sei que os produtores de conteúdo precisam fazer dinheiro, e que os anúncios são uma forma de receita, mas tá muito; precisa diminuir em quantidade e intensidade.

De fato, discernir o que entra pelos nossos olhos é uma responsabilidade e uma necessidade. Muito popular nos sites de zoeira, a frase “o que foi visto não pode ser desvisto” é uma verdade frequentemente negligenciada em nosso cotidiano frenético e devorador de atenção. Podemos não ser como o homem que lembrava tudo, mas corremos o risco de lembrar aquilo que não queremos.

Hoje existe tanto para qualquer coisa que quisermos que precisamos ser curadores de nós mesmos, separando o útil do inútil e retendo o que é bom. E só para constar, o método empregado pelo Bob Esponja não funciona.

 

 

Indulgências que não valem a pena

junho 30, 2016

sleep

 

Minha geração está envelhecendo. Outro dia eu contei os primeiros cabelos brancos aparecendo na cabeça. Será que esse é um processo natural ou estamos tentando acelerá-lo? Considerando os dados sobre a quantidade de álcool que bebemos e a quantidade de horas que dormimos, parece que são as duas coisas. Parece também existir uma correlação entre dois fatos que, juntos, podem nos dar uma boa ressaca cronológica.

Atualmente é bastante comum a ideia de beber muito. Beber com os amigos, beber sozinho, beber na balada, beber em qualquer lugar. Ao contrário da Lei Seca, na vida social parece existir uma tolerância à embriaguez. É uma coisa normal, e para alguns eventual. Vamos apenas lembrar que o álcool é uma droga, ainda que lícita, e que seu consumo excessivo faz nosso relógio andar mais rápido e trôpego. Nós, os ainda jovens, e os que vem depois de nós, ainda mais jovens, temos muito a perder enxugando garrafas sem moderação.

Aliado a esse hábito nada sadio temos outro igualmente ruim: o de dormir pouco e mal. Se perguntarmos a qualquer pessoa se ela gosta de dormir, é provável que ela diga que sim, mas que não dorme o quanto gostaria, nem mesmo o quanto deveria. Pensamos que podemos compensar o sono em horas, tentando dormir pouco em alguns dias e muito em outros. Com tantas telas para vigiarmos e por elas sermos vigiados o tempo todo, ficou mais difícil entender o quão importante é o sono. Na verdade, não dormir tem sérios efeitos a curto e a longo prazo.

Elenquei esses dois péssimos hábitos porque vejo certo incentivo a eles nas mídias que consumo, particularmente na internet e nos filmes. São também dois fatores que se alimentam e se potencializam. O louvor ao álcool e o desprezo ao sono não só nos fazem envelhecer mais rápido, mas pior – ficamos mais irritados, deprimidos, doentes e estúpidos, e vemos os reflexos disso todos os dias. Buscamos consolo e descanso em indulgências que não valem a pena.

É possível mudar essa realidade, e há muitas razões para fazê-lo. O álcool moderado tem grandes benefícios, enquanto que boas e regulares noites de sono não só trazem descanso, como também reparos essenciais ao nosso organismo. Precisamos, porém, de um olhar atento à rotina e aos hábitos para que desfrutemos da cada passo da vida sem acelerar os efeitos da idade; ao contrário, podemos retardar esse relógio com medidas simples, nem sempre fáceis de implementar, mas muito recompensadoras.